Gilberto Nable - Chove lá fora (German translation)

Portuguese

Chove lá fora

Chove lá fora sobre as serranias de Aiuruoca.
Chove lá fora sobre o gado em aboio.
Chove lá fora sobre os bambuais e o rio.
Chove lá fora sobre antigos caminhos da minha infância,
com arapucas armadas e rolinhas,
e folhas úmidas nos pés descalços,
e lírios já orvalhados.
Chove sobre os pirilampos no escuro
em verde fosforescência.
Chove sobre o corpo de minha mãe doente,
exposto ao tempo e à febre.
Chove dentro do meu peito.
 
Chove uma chuva miúda e triste.
Chove, afinal, sobre os telhados do mundo.
Chove nos escombros do World Trade Center,
no Marco Zero da Grande América divinizada.
Chove sobre as mulheres iraquianas orando e balindo.
Chove sobre os campos de refugiados no Afeganistão,
em suas barracas esfarrapadas ventando;
assim como antes chovera nos campos de Sabra e Shatila,
e no Gueto de Varsóvia.
 
Chove na piazza de São Pedro, deserta,
e sobre os ombros encarquilhados do Papa.
Ouço a chuva caindo sobre minaretes e sinagogas
com seu ruído monótono.
 
Vejo a chuva molhando o corpo dilacerado de um
menino palestino,
com as mãos agarradas a uma pedra.
Chove nos capacetes metálicos dos soldados de Israel,
nas suas viseiras de aço e miras telescópicas.
 
Chove ainda hoje sobre mim,
bêbado, sozinho e urinando na chuva,
com um miserável soluço na garganta.
Eu sei que chove hoje e choverá para sempre,
em lento e definitivo dilúvio,
sem intervalo, nem instante,
até que tudo esteja submerso sob as águas,
e na superfície nada,
nada respire sobre as ondas.
 
Submitted by Manuela Colombo on Fri, 08/12/2017 - 21:27
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Médico, poeta e contista, Gilberto Tadeu Nable nasceu em Aiuruoca, cidade do sul de Minas, em 1954. Estreou em livro com o volume Elegias Urbanas e Outros Poemas, de 1988. Em seguida, publicou o livro de contos Menino Abstrato (1995).
Após o lançamento de seu livro de poesia Percurso da Ausência (2006), publicou O Mago sem Pombos (2008) e O tratador de canários (2010).

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German translation

Es regnet da draußen

Es regnet da draußen auf die Hügel von Aiuruoca.
Es regnet da draußen auf das Vieh in Aboio.
Es regnet da draußen auf den Bambus und den Fluss.
Es regnet da draußen auf alte Wege meiner Kindheit,
mit gespannten Vogelschlingen und Turteltauben,
und nassen Blättern auf den nackten Füßen,
und Lilien, auf denen schon Tau liegt.
Es regnet auf die Glühwürmchen in der Dunkelheit
in grüner Phosphoreszenz.
Es regnet auf den Körper meiner kranken Mutter,
der Zeit und dem Fieber ausgesetzt.
Es regnet in meiner Brust.
 
Es regnet einen kleinen und traurigen Regen.
Es regnet schließlich auf die Dächer der Welt.
Es regnet auf die Trümmer des World Trade Centers,
auf den Ground Zero des vergöttlichten Großen Amerikas.
Es regnet auf irakische Frauen, die beten und blöken.
Es regnet auf die Flüchtlingslager in Afghanistan,
auf ihre Zelte, deren Fetzen im Wind wehen;
so, wie es zuvor auf die Felder von Sabra und Shatila geregnet hat,
und auf das Warschauer Ghetto.
 
Es regnet auf den Petersplatz, verlassen,
und auf die verschrumpelten Schultern des Papstes.
Ich höre den Regen auf Minarette und Synagogen
mit seinem monotonen Geräusch.
 
Ich sehe den Regen, wie er den zerrissenen Körper eines
palästinensischen Kindes benässt,
die Hände um einem Stein gekrallt.
Es regnet auf die Metallhelme der Soldaten Israels,
auf ihre Stahlvisiere und Zielfernrohre.
 
Es regnet auch heute noch auf mich,
betrunken, allein und im Regen pissend,
mit einem erbärmlichen Schluchzen in der Kehle.
Ich weiß, es regnet heute und es wird ewig weiterregnen,
in einer langsamen und endgültigen Flut,
ohne Pause, nicht mal für einen Moment,
bis alles im Wasser versunken ist,
und auf der Oberfläche nichts,
gar nichts mehr atmet auf den Wellen.
 
Submitted by nanikk on Sat, 13/01/2018 - 09:38
Added in reply to request by Manuela Colombo
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