Mário de Sá-Carneiro - Certa voz na noite, ruivamente…

Portuguese

Certa voz na noite, ruivamente…

Esquivo sortilégio o dessa voz, opiada
Em sons côr de amaranto, ás noites de incerteza,
Que eu lembro não sei d'Onde—a voz duma Princesa
Bailando meia nua entre clarões de espada.
 
Leonina, ela arremessa a carne arroxeada;
E bêbada de Si, arfante de Beleza,
Acera os seios nus, descobre o sexo… Reza
O espasmo que a estrebucha em Alma copulada…
 
Entanto nunca a vi, mesmo em visão. Sómente
A sua voz a fulcra ao meu lembrar-me. Assim
Não lhe desejo a carne—a carne inexistente…
 
É só de voz-em-cio a bailadeira astral—
E nessa voz-Estátua, ah! nessa voz-total,
É que eu sonho esvaír-me em vicios de marfim…
 
Submitted by Guernes on Thu, 12/10/2017 - 20:20
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Lisboa 1914—Janeiro 31

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