Mário de Sá-Carneiro - Distante melodia

Portuguese

Distante melodia

Num sonho d'Iris, morto a ouro e brasa,
Vem-me lembranças doutro Tempo azul
Que me oscilava entre véus de tule—
Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa.
 
Então os meus sentidos eram côres,
Nasciam num jardim as minhas ansias,
Havia na minh'alma Outras distancias—
Distancias que o segui-las era flôres…
 
Caía Ouro se pensava Estrelas,
O luar batia sobre o meu alhear-me…
Noites-lagôas, como éreis belas
Sob terraços-liz de recordar-me!…
 
Idade acorde d'Inter sonho e Lua,
Onde as horas corriam sempre jade,
Onde a neblina era uma saudade,
E a luz—anseios de Princesa nua…
 
Balaústres de som, arcos de Amar,
Pontes de brilho, ogivas de perfume…
Dominio inexprimivel d'Ópio e lume
Que nunca mais, em côr, hei de habitar…
 
Tapêtes doutras Persias mais Oriente…
Cortinados de Chinas mais marfim…
Aureos Templos de ritos de setim…
Fontes correndo sombra, mansamente…
 
Zimbórios-panthéons de nostalgias…
Catedrais de ser-Eu por sobre o mar…
Escadas de honra, escadas só, ao ar…
Novas Byzancios-alma, outras Turquias…
 
Lembranças fluidas… cinza de brocado…
Irrealidade anil que em mim ondeia…
—Ao meu redór eu sou Rei exilado,
Vagabundo dum sonho de sereia…
 
Submitted by Guernes on Thu, 12/10/2017 - 20:29
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Paris 1914—Junho 30

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