Mário de Sá-Carneiro - A inagualavel

Portuguese

A inagualavel

Ai, como eu te queria toda de violetas
E flébil de setim…
Teus dedos longos, de marfim,
Que os sombreassem joias pretas…
 
E tão febril e delicada
Que não podesses dar um passo—
Sonhando estrelas, transtornada,
Com estampas de côr no regaço…
 
Queria-te nua e friorenta,
Aconchegando-te em zibelinas—
Sonolenta,
Ruiva de éteres e morfinas…
 
Ah! que as tuas nostalgias fôssem guisos de prata—
Teus frenesis, lantejoulas;
E os ócios em que estiolas,
Luar que se desbarata…
 
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 
Teus beijos, queria-os de tule,
Transparecendo carmim—
Os teus espasmos, de sêda…
 
—Água fria e clara numa noite azul,
Água, devia ser o teu amor por mim…
 
Submitted by Guernes on Thu, 12/10/2017 - 20:47
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Lisboa 1915—Fevereiro 16

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