Henri Michaux - Une vie de chien (Portuguese translation)

French

Une vie de chien

. . Je me couche toujours très tôt et fourbu, et cependant on ne relève aucun travail fatigant dans ma journée.
 
. . Possible qu’on ne relève rien.
 
. . Mais moi, ce qui m’étonne, c’est que je puisse tenir bon jusqu’au soir, et que je ne sois pas obligé d’aller me coucher dès les quatre heures de l’après-midi.
 
. . Ce qui me fatigue ainsi, ce sont mes interventions continuelles.
 
. . J’ai déjà dit que dans la rue je me battais avec tout le monde ; je gifle l’un, je prends les seins aux femmes, et me servant de mon pied comme d’un tentacule, je mets la panique dans les voitures du Métropolitain.
 
. . Quant aux livres, ils me harassent par-dessus tout. Je ne laisse pas un mot dans son sens ni même dans sa forme.
 
. . Je l’attrape et, après quelques efforts, je le déracine et le détourne définitivement du troupeau de l’auteur.
 
. . Dans un chapitre vous avez tout de suite des milliers de phrases et il faut que je les sabote toutes. Cela m’est nécessaire.
 
. . Parfois, certains mots restent comme des tours. Je dois m’y prendre à plusieurs reprises et, déjà bien avant dans mes dévastations, tout à coup au détour d’une idée, je revois cette tour. Je ne l’avais donc pas assez abattue, je dois revenir en arrière et lui trouver son poison, et je passe ainsi un temps interminable.
 
. . Et le livre lu en entier, je me lamente, car je n’ai rien compris... naturellement. N’ai pu me grossir de rien. Je reste maigre et sec.
 
. . Je pensais, n’est-ce pas, que quand j’aurais tout détruit, j’aurais de l’équilibre. Possible. Mais cela tarde, cela tarde bien.
 
Submitted by Guernes on Thu, 08/12/2016 - 19:55
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Portuguese translation

Uma vida de cão

. . Deito-me sempre muito cedo, e estafado, e no entanto não é visível, no meu dia de trabalho, nada de cansativo.
 
. . É possível que não se dê mesmo por nada.
 
. . Mas a mim, o que me espanta, é poder aguentar até à noite, e não ser obrigado a ir-me deitar logo às quatro da tarde.
 
. . O que me cansa são as minhas contínuas intervenções.
 
. . Já disse que na rua andava à pancada com toda a gente. Dou bofetadas num tipo, apalpo as mamas às mulheres, e servindo-me do meu pé como dum tentáculo, semeio o pânico nas carruagens do Metropolitano.
 
. . Quanto aos livros, são os que mais me dão cabo da cabeça. Não deixo uma palavra com o seu sentido, nem sequer com a sua forma.
 
. . Agarro-a e, após alguns esforços, arranco-lhe a raiz e desvio-a definitivamente da manada do autor.
 
. . Num capítulo há logo milhares de frases, e lá tenho eu que as sabotar todas. Isso é-me necessário.
 
. . Às vezes, algumas palavras resistem como torres. Tenho que atacá-las várias vezes e, já bem lançado nas minhas devastações, subitamente, na esquina de uma ideia, revejo a torre. Por conseguinte, não a tinha suficientemente demolido. Tenho que voltar ao princípio e encontrar o veneno para ela, e nisto passo tempos infinitos.
 
. . E uma vez lido o livro inteiro, lamento-me, pois não percebi nada... naturalmente. Não consegui engordar nada. Continuo magro e seco.
 
. . Eu pensava (não era ?) que quando tivesse destruído tudo, encontraria o equilíbrio. Possivelmente. Mas o que isso demora, quanto demora !
 
Submitted by Guernes on Thu, 08/12/2016 - 19:58
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