Elis Regina - Águas de Março

Portugués

Águas de Março

É pau, é pedra
É o fim do caminho
É um resto de toco
É um pouco sozinho...
 
É um caco de vidro
É a vida, é o sol
É a noite, é a morte
É um laço, é o anzol...
 
É peroba do campo
É o nó da madeira
Caingá, Candeia
É o matita-pereira...
 
É madeira de vento
Tombo da ribanceira
É um mistério profundo
É o queira ou não queira...
 
É o vento ventando
É o fim da ladeira
É a viga, é o vão
Festa da Cumeeira...
 
É a chuva chovendo
É conversa ribeira
Das águas de março
É o fim da canseira...
 
É o pé, é o chão
É a marcha estradeira
Passarinho na mão
Pedra de atiradeira...
 
É uma ave no céu
É uma ave no chão
É um regato, é uma fonte
É um pedaço de pão...
 
É o fundo do poço
É o fim do caminho
No rosto, um desgosto
É um pouco sozinho...
 
É um estrepe, é um prego
É uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando
É uma conta, é um conto...
 
É um peixe, é um gesto
É uma prata brilhando
É a luz da manhã
É o tijolo chegando...
 
É a lenha, é o dia
É o fim da picada
É a garrafa de cana
Estilhaço na estrada...
 
É o projeto da casa
É o corpo na cama
É o carro enguiçado
É a lama, é a lama...
 
É um passo, é uma ponte
É um sapo, é uma rã
É um resto de mato
Na luz da manhã...
 
São as águas de março
Fechando o verão
E a promessa de vida
No teu coração...
 
É uma cobra, é um pau
É João, é José
É um espinho na mão
É um corte no pé...
 
São as águas de março
Fechando o verão
É a promessa de vida
No teu coração...
 
É pau, é pedra
É o fim do caminho
É um resto de toco
É um pouco sozinho...
 
É um passo, é uma ponte
É um sapo, é uma rã
É um belo horizonte
É uma febre terçã...
 
São as águas de março
Fechando o verão
É a promessa de vida
No teu coração...
 
-Pau, -Edra, -Im, -Inho
-Aco, -Idro, -Ida, -Ol
 
São as águas de março
Fechando o verão
É a promessa de vida
No teu coração...
 
Publicado por Invitado/a el Vie, 01/01/2010 - 00:00
Editado por última vez por ulissescoroa el Sáb, 04/03/2017 - 23:00
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