Eugénio de Andrade - As palavras interditas

Portuguese

As palavras interditas

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades
partem no vento, regressam nos rios.
 
Na areia branca, onde o tempo começa
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.
 
Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.
 
As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.
 
Dói-me esta água, este ar que se respira
dói-me esta solidão de pedra escura
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.
 
E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens vivas, desenhadas
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.
 
Submitted by Guernes on Wed, 14/02/2018 - 20:02
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